"As pessoas boas devem amar os seus inimigos", Seu Madruga
COLUNAS - EPÍSTOLAS DO BARRIL

Ah.... Que Kiko? Aquele Quico?

Por Marcelo

Quem de vocês já conferiu a série Ah, que Kiko!, protagonizada por Carlos Vilagrán em seu período pós-Chaves? Peguei o dvd de um amigo meu, que tem quatro episódios da série. Também, por R$ 12,99 podia ser absurdamente muito ruim que ainda não lhe daria qualquer sensação de ter saído no prejuízo. Creio que muitos de vocês pensam assim também e devem ter conferido. Mesmo correndo o risco de chover no molhado, fiquei com vontade de resenhar aqui pra vocês e resolvi fazê-lo.

Com os recentes lançamentos de vários volumes de Chaves (muitos inéditos por aqui), Chapolin e Chespirito pela Amazonas Filmes, o obscuro Ah, que Kiko! acabou tendo também sua oportunidade de se mostrar para os fãs de Chaves e de tudo que se relaciona com a série, mesmo que remotamente, como é o caso deste programa de Vilagrán.

Ah! Que Kiko  (DVD) Para os poucos que ainda não devem saber, o programa gira em torno do Kiko (oh! Jura?). Mas do Kiko que conhecemos resta só aquilo que foi imortalizado pelo próprio Vilagrán, que é a figura do personagem, com suas roupas de marinheiro e suas bochechas enormes. Todo o contexto do personagem, criado por Bolaños, foi deixado de lado no programa, produzido em 1988.

Sabem o menino mimado, que tem uma mãe super protetora, que corre para defendê-lo sempre que ele chora? Pois é, esqueçam. A Dona Florinda não existe nesse universo – basicamente porque estava lá na Vila, ainda morando no 14.

Kiko (com K, e não mais com Q) já não é um filhinho de mamãe, é um rapaz de cerca de doze, treze anos (segundo o dublador colocou em entrevista) que trabalha e encara a dura realidade da vida. Então, o bochechudo é quase um estagiariozinho, um menor aprendiz em uma espécie de "Venda da Esquina". Com isso, o princípio do personagem já vai pro saco faz tempo. Ao perceber isso, aquele fã de Chaves que está assistindo pode ter duas reações. Ou se irrita pela total e completa distorção de um personagem que era irretocável e pela colocação dele em um universo que em nada se assemelha com as diretrizes básicas impostas por seu criador ou simplesmente pega uma pipoquinha e relaxa, assistindo sem qualquer expectativa. Fiz o segundo. Aliás, é ingenuidade esperar que Ah que Kiko! seja bom a ponto de rivalizar de alguma forma com Chaves. O negócio é assistir sem qualquer pretensão, não há nada mais saudável.

E assim, sem pretensões, é possível curtir a história. Aliás, para quem está acostumado às histórias e personagens bem costurados e com personalidades um pouco mais complexas, pode ficar bem frustrado - claro, caso tenha alguma expectativa maior. Além do protagonista, temos o "Seu Brancelha" (Don Cejudo, no original). Seu Brancelha, que tem sobrancelhas bem grossas - daí o nome -, é o dono da venda e patrão do Kiko. Apesar de haver a relação empregatícia entre os dois, Brancelha é um homem bom e amigo. Ele é apaixonado por Pâmela, uma mulher muito gata que arrasta uma asa para o dono da venda, muito mais velho que ela, supostamente só para conseguir comprar as coisas fiado. A Pâmela, inclusive, é, na minha opinião, o modelo de mulher bonita que Bolaños nunca conseguiu para o Chaves. Não tem pra Glória (nenhuma das duas), nem pra Paty, que perde de pouco, mas perde. A moça ainda tem uma sobrinha, Nena, com quem Kiko flerta de vez em quando, mas nunca dá em nada, ou pelo menos não deu nos episódios que eu assisti. O detalhe é que nos primeiros episódios, o Dono da Venda é nada mais nada menos do que O Cara, O Mestre Supremo: Seu Madruga.

Ramón Valdez aceitou o convite de Villagrán e integrou a série por alguns episódios, também como Seu Madruga e também totalmente deslocado de sua realidade no universo Chespiritiano.

Pouco tempo depois, Valdez saiu do seriado para voltar a gravar Chaves, um pouco antes de morrer. Seu Brancelha ocupou seu lugar, e sinceramente, fez melhor o papel, uma vez que o Grande Seu Madruga não cabe atrás de um simples balcão. É muito pouco para ele.

Mas o Co-protagonista de Ah, que Kiko! é Totó, um menino muito pobre, que é amigo de Kiko. Alguma semelhança com o Chaves? Pois é, Totó é o melhor amigo de Kiko. A diferença é que a amizade deles é mais "pacífica", não como em Chaves, onde a porrada comia entre os dois amigos pelo menos uma vez por episódio. Kiko e Totó têm um cumprimento característico sempre que se encontram, um tipo de bordão visual, algo para marcar. Achei bem legal, tanto o cumprimento quanto a idéia. Talvez fosse o que faltasse para desvincular o antigo personagem de Chaves. Fica claro que Kiko e Totó são baita amigões e que se gostam muito. Não sobra espaço para pensar na existência (ou na falta dela) do Chaves.

O balanço final da série é positivo pra mim. Temos a chance de ver o que Villgrán resolveu fazer da vida após conquistar o mundo com Chaves. Vemos uma série fraca de roteiro, mas com personagens agradáveis, ainda que não arrebatadores. Mesmo não sendo uma obra-prima, existem boas idéias ali, e é divertido ver o Kiko interagindo com personagens diferentes. Resumindo, se você embarcar na proposta, sem pensar "oh, traição!", há uma grande chance de passar alguns bons minutos de diversão.