Turma do Chaves
"Prefiro morrer do que perder a vida", Chaves
COLUNAS - EPÍSTOLAS DO BARRIL

Dissecando "O Diário do Chaves"

Por Marcelo

Já se passaram 3 anos desde o início deste Portal, que hoje é uma das maiores referências nacionais sobre Chaves e Chapolin na internet. Eu mesmo só estou há pouco mais de um ano trabalhando pelo Portal Turma do Chaves, mas sinto a popularidade dessa iniciativa tão bem-sucedida. Os e-mails que recebo, de várias partes do país, e também do exterior, são uma fonte de energia inesgotável para mim e para os outros da equipe. É uma alegria poder participar do Portal Turma do Chaves e faço votos de prosperidade a esse maravilhoso projeto. Parabéns!

Agora, imagine a seguinte situação: Um senhor está caminhando pelo parque e um garoto pobre o aborda, perguntando se ele quer engraxar os sapatos. O sujeito topa, estabelecendo um breve momento em comum com o garoto. Agora imagine que esse senhor é Roberto Gómez Bolaños e que o garoto engraxate é simplesmente o Chaves, sua maior criação.

É disso que se trata o livro “O Diário do Chaves”. Após engraxar os sapatos de Bolaños, Chaves recebe seu pagamento pelo serviço, e ao sair correndo deixa cair um caderninho repleto de relatos de sua vida. Bolaños então pega o pequeno diário e apresenta para nós. Encontros entre criador e criatura não são novidade. O autor de Sandman, Neil Gaiman, já fazia isso antes, com sucesso. Chespirito abriu um pouco mais a vida de seu maior personagem com este livro. Nele, Chaves conta algumas histórias da sua vida, muitas conhecidas por nós e outras que apenas imaginávamos como deveria ser.

Chaves nos conta o que aconteceu em sua vida antes de chegar até a Vila onde já moravam Chiquinha, Kiko, Seu Madruga e outros. Sua história se parece com histórias de tantos outros garotos pobres como ele, em várias partes do mundo. A luta para sobreviver na rua, a dificuldade para manter a pureza própria de uma criança em um cruel mundo de adultos e a busca por uma identidade. Na Vila, Chaves fala sobre Kiko, D. Florinda, Chiquinha, D. Clotilde, Paty, Seu Madruga e todos os outros personagens que passaram por lá. Lembram do Cente? Aquele amigo do Chaves que ninguém viu, no único episódio em que foi mencionado? Pois é, Chaves não se esquece dele, que ao contrário do que eu pensava, não era imaginário.

Podemos também relembrar alguns momentos de episódios já transmitidos pelo SBT. Tive a sensação de estar conhecendo também alguns episódios inéditos no Brasil, e me senti privilegiado.

Com esse livro, nós, que já podemos nos sentir mais próximos do Chaves do que outras pessoas, mas sempre querendo mais, temos a sensação de que Bolaños pensou justamente em nos dar um presente final, com alguns detalhes novos e uma humanidade maior. Humanidade maior pois em vários momentos do livro, Chaves se comporta como uma criança dos dias de hoje, falando palavras que nunca havia falado, como “bunda” ou “merda”. Confesso que fiquei um tanto decepcionado com isso, mas a quem queremos enganar? Meninos de rua não primam pelo vocabulário refinado, não é mesmo?

Quem ler poderá saber também o que aconteceu após o final do seriado, como continuou a vida da Vila e como terminou a de um de seus moradores. Talvez as últimas páginas do Diário sejam justamente um pequeno esboço de como seria o tão especulado último episódio da série. Mas o autor também fala com aqueles que sempre quiseram ver um “Episódio Final”, dizendo: “... mas é claro que a vida continua. O que termina é o escrever cotidiano, mas o acontecer cotidiano continua”. Ou seja, não se preocupem se “Chaves” parou de ser produzido, pois ele ainda continua lá na Vila, brincando e aprontando. A diferença é que não podemos mais ver.

Como um “bônus” para o leitor, várias páginas ao longo de todo o livro apresentam ilustrações feitas pelo próprio autor e ator, o que muitas vezes tem um caráter de auto-retrato. Em seus traços não vemos o profissionalismo de um desenhista, mas todo o coração de um pai apaixonado pelos seus filhos.

Após o diário, ainda temos um capítulo chamado “Histórico”, onde Florinda Meza relata algumas passagens do elenco pelo exterior, em turnês, e tenta passar para nós todo o fanatismo com que eram recebidos, e como “Chaves” havia se tornado uma instituição, principalmente na América Latina.

Já no final, lembro da melhor passagem do livro, na minha opinião, onde Chespirito por um momento esquece a “brincadeira” de se encontrar pessoalmente com Chaves e abre seu coração, agradecendo ternamente ao menino de roupas esfarrapadas por tudo que esse “incomparável personagem” representou ao velho escritor e por tudo que ele lhe deu.

Pois eu digo, Roberto Gómez Bolaños: Obrigado por ter me proporcionado a experiência de conhecer um personagem tão maravilhoso como o Chaves, num universo tão singular como é a Vila e por ter contribuído positivamente na minha infância, rendendo frutos até hoje.

Por ter entrado na minha vida de repente, e nunca mais saído dela, obrigado.