Tem muito tempo, muito tempo mesmo, que gosto de Chaves. Às vezes, no trabalho, utilizo frases já ditas no seriado, e rio sozinho. Certa vez, para indicar a falha de um documento a uma pessoa, disse algo assim: “Esse memorando está errado como você... Como você pode ter notado”. Fico pensando: “Se algum dos meus amigos estivessem aqui eles iam se amarrar”. Mas eles nunca estão, claro. Mas isso não me impede de dizer algo já proferido antes pelo Seu Madruga, Prof. Girafales, Chaves ou qualquer outro, desde que caiba ao momento. E em outras oportunidades, quando faço isso, acabo sendo interpretado como um “fala-difícil” ou “intelectualóide”. Mas nada disso. Sou apenas um fã de Chespirito.
Chaves também é cultura, posso dizer. Exceto nas aulas em que o Professor Girafales dá lição de História do Brasil (fruto de uma tentativa mal-sucedida da equipe de dublagem de aproximar o seriado à realidade brasileira), podemos sim aprender com Chaves e Chapolin. Quem é que sabia o que significava calistenia? E agora vocês já sabem que se alguém quiser oferecer-lhes uma peita, saia fora. Ou aceite, dependendo da sua índole.
Chaves e Chapolin são bastante divertidos, e muitas vezes educativos. Entre outras coisas ensinam a tolerância entre pessoas que não se gostam, como no episódio do Dia de São Valentim, ou até mesmo da Venda dos Churros (até hoje aquele final deixa meus olhos marejados) e também a repartir as nossas coisas com a gentalha.
Perto de nós podemos encontrar pessoas parecidas com alguns personagens, mesmo que só por um momento. Minha mãe, por exemplo. Já vestiu a carapuça de D. Florinda várias vezes para me defender ou defender meus interesses, principalmente quando eu era mais novo. Ela até se auto-proclama como tal, e brada “Tesourooo!” quando precisa invocar sua personalidade coruja.
Certa vez estudei com um gordinho que comia muito no recreio e que se aproveitava de seu tamanho para impor respeito (como o Nhonho com suas barrigadas). Aliás, quem nunca estudou com um gordinho (ou até mesmo era o gordinho da turma)? E quais desses gordinhos nunca foram chamados de Nhonho, pelo menos uma vez?
Tudo isso é muito divertido, mas a verdade é que eu muitas vezes me sentia como o Godinez. Sempre no seu canto, falando de vez em quando, às vezes acerta, às vezes não. Observa mais do que qualquer outra coisa, e por pouco não vira um figurante na sua própria vida.
Falei de figurantes e lembrei de uma história. Quando fazia a segunda série do ensino fundamental, num colégio público cuja professora não seria digna nem de sentar na última carteira da classe do Mestre Lingüiça, estudei, ou pelo menos compartilhei o mesmo espaço, com um garoto que trabalhava no circo. E o circo estava na cidade. Sinceramente nunca entendi por que diabos seus pais o matricularam, pois ele entrou no meio do mês de abril (Ou maio. Sei lá, faz tanto tempo), e ainda assim faltava constantemente. Raramente o víamos em sala de aula, exatamente como o Higino, “o menino que se senta ali”. Nossa professora sempre reclamava da ausência do “Higino”, que acabou nos abandonando em cerca de um mês. Provavelmente ele já estivesse matriculado em outra escola, em outro canto do Brasil, quando a “Tia” ainda chamava pelo seu nome durante todas as manhãs. Talvez ele se divertisse mais no meio dos leões e das mulheres barbadas do que perto daquela professora horrível, que certa vez foi xingada de “Velha Coroca” pelo “Nhonho” da classe. Nesse dia eu vibrei em silêncio.
Se eu tivesse muito dinheiro construiria uma réplica da Vila no quintal da minha casa. Uns dias eu dormiria no 14, outros no 72 (quando estivesse disposto a dormir no sofá), no 71 e até no barril. Jogaria bola no pátio, em alguma data especial eu construiria um palco na frente do 72, para algumas apresentações de música e teatro...
Bom, assim, em poucas linhas, dá pra entender a dimensão da importância de “Chaves” e “Chapolin”, e do quanto eles influenciam nossas vidas.
Quando sentei-me para escrever essas linhas, honestamente não tinha uma idéia muito definida, e comecei a escrever o que vinha à minha cabeça acerca de “Chaves” e “Chapolin”. Então, assim, “sem querer querendo”, acabei expondo a vocês um pouco da relação entre a minha história e o programa e que muitas vezes eles se entrelaçam. As experiências, as brincadeiras, os amigos. Tudo isso foi tocado por Bolaños na minha vida. E aposto que na vida de muitos vocês também. E é exatamente esse legado, que está definitivamente plantado e florescido, que nunca morrerá em nossas mentes e corações, independente das decisões tomadas pelo Sr. Silvio ou por qualquer outro.