Turma do Chaves
Hiragana Animes
"Não gostaria de ir a Disneylândia com o Polegar Vermelho?", Chapolin Colorado
COLUNAS - EPÍSTOLAS DO BARRIL

Há espaço para Chaves na vida adulta?

Por Marcelo

Antes de começar meu tema desse mês, quero parabenizar o Portal por esses dois anos de vida, e toda a equipe que levou à frente esse belo projeto, homenageando uma das maiores criações da história da TV. Sou novo aqui na casa, mas a estrutura que encontrei é digna da importância de Chaves e Chapolin. Parabéns ao Evandro e à todos que levaram essa idéia desde o começo, transformando o Turma do Chaves em um grande referencial de Chaves e Chapolin no Brasil.

PARABÉNS E QUE TENHAMOS MAIS E MAIS ANOS DE SUCESSO!

Agora, vamos ao artigo desse mês...

Há pouco tempo atrás, eu teria escrito essas linhas apenas baseado em experiências dos outros. Há pouco tempo atrás, minha vida não era muito mais do que comer, dormir, escrever, tocar com a minha banda e me preocupar por não ser mais que isso. Porém, finalmente eu consegui. Arrumei um emprego, que é super desgastante e me afasta de coisas que realmente gosto, mas é algo pelo qual você tem que passar na sua vida, para poder crescer. E é uma das coisas que venho tentando buscar a cada dia: crescimento.

Mas seria crescer se livrar das coisas boas que você sempre cultivou e agora as relaciona aos momentos de boa-vida, "vagabundagem" e irresponsabilidade de outrora? Eu sinceramente acredito que não.

Talvez eu me recuse a crescer em alguns pontos. Ficar sério, não poder tirar onda da cara dos amigos, não andar mais vestindo bermuda e camisa de banda pela rua nos tempos livres é algo que eu adoro fazer sempre que posso. Porém receio não ter tido muito tempo pro nosso amiguinho da Vila.

Não lembro mais exatamente em qual horário que Chaves é transmitido. Faz um tempo considerável que não me sento para assistir a um episódio sequer e o único contato mais concreto que tenho com o Bolaños e suas criações maravilhosas é quando acesso este portal, minha via de comunicação, uma das poucas que tenho com meu mundo real.

Para mim, o Chaves não se afastou de mim e nem eu dele. Minha vida mudou, meus dias são tão incrivelmente mais curtos quanto desinteressantes, e uma das últimas coisas que posso fazer em dias de semana é assistir televisão. Mas sempre que acesso o Portal, sinto-me mais "Marcelo" do que nunca. Sempre que eu e meus amigos conversamos sobre o Chaves, sobre como o Chapolin nos faz falta, sinto-me mais autêntico. É como se minha verdadeira personalidade estivesse sufocada e conseguisse um espacinho para colocar o nariz pra fora e respirar, como um resgate de mim mesmo.

Na verdade eu acabo me sentindo mais fã de Chaves do que antes. Porque há tempos eu não assisto, mas não a esqueço, tenho saudades e sinto um prazer enorme sempre que tenho algum contato com essa série.

Hoje teve ameaça de bomba no prédio onde eu trabalho. Rebate falso, claro. Dificilmente as coisas sairiam voando pelos ares enquanto correríamos como galinhas-sem-cabeça batendo uns nos outros. Mas o engraçado disso tudo é que uma das primeiras coisas que vieram à minha cabeça, em meio à confusão, foi exatamente a frase: "Primeiro as mulheres, crianças e os Chapolins!"

Imaginei o Chapolin correndo em direção à porta, passando por cima de todo mundo, gritando essa frase, para poder escapar da ameaça de bomba sobre suas anteninhas de vinil. E ri, claro. Quem de nós não esboçaria sequer um sorriso, imaginando uma cena dessas?

O fato é: depois de tantos anos cultivando Chaves e Chapolin na minha vida, não vai ser meia dúzia de meses sem assistir o seriado que vai me fazer esquecer dos diálogos, dos episódios, das cenas engraçadas e das longas conversas com os amigos sobre os mais variados temas do universo de Bolaños.

Tenho um amigo de longa data, o chamamos de Zulu, cujo pai é fã de Chaves desde muito tempo. O Zulu tem uns 21 anos, e dois irmãos (até onde me lembro) mais velhos que ele. Contabilizando assim por cima, podemos estimar que seu pai deva passar dos 40 até com uma certa folga. Aí me pergunto: porque o pai do meu amigo, que tem mais que o dobro da minha idade, pode se permitir ver e gostar de Chaves, e eu, que mal “aprendi a ferver o leite”, tenho que ficar bancando o ranzinza?

Me recuso a abandonar o Chaves, o Chapolin, e tudo que eles representam na minha vida. Sou fã confesso e vestirei essa camisa sempre. E se eu lá na frente, me tornar alguém para o mundo, gostaria de ser uma referência positiva de um "Senhor" que adora Chaves e tem um caráter admirável, assim como eu vejo o pai do meu amigo Zulu.

Já parei, há uns anos atrás, para pensar se eu deveria abandonar ou simplesmente deixaria de gostar desse seriado quando me tornasse mais velho. Imaginei que acabaria perdendo a graça no final das contas e começaria a procurar um humor mais adulto, talvez um típico humor inglês (que ainda acho uma tremenda chatice). Mas graças a Deus nada disso aconteceu, nem está acontecendo. E o melhor é que hoje posso falar diferente, e ver além do que se vê superficialmente em Chaves e Chapolin. No primeiro texto que fiz para o portal (ainda não publicado), ainda como candidato a colunista, falei sobre a série, mas sem parecer um atrasado ou uma criança grande, um velho que se recusa a crescer, e me senti bem. Senti que Chaves pode me acompanhar a vida toda, como acompanhou Chespirito e seus “parceiros no crime”.

Já finalizando, me arrisco a dizer que se mais pessoas conservassem em suas vidas adultas algumas características que Bolaños quer passar através de suas criações, não existiriam tantos patrões detestáveis, tantas hostilidades no trânsito, tantas traições, tanta maldade, tanta desonestidade, tanta malícia, tanto de tudo que sempre vemos na TV, quando não está passando Chaves ou Chapolin, é claro.