"Ninguém tem paciência comigo", Chaves
COLUNAS - EPÍSTOLAS DO BARRIL

E agora, quem poderá nos defender?

Por Marcelo

Parte Final

Então, num belíssimo dia, ele volta!

Chapolin reaparece, num "combo-super-finish" de episódios diários. Eu me deliciava, não perdia um. Me arrependia das vezes que por algum motivo, não estive lá. E tentava me redimir não desperdiçando uma cena sequer.

Ri muito dos especiais de sátiras de filmes clássicos (Quem não se lembra de Ramón Valdez como Pantera Cor-de-Rosa, ou de Chespirito como Napoleão?). Comentava com amigos, trocava opiniões com eles sobre alguma cena ou episódio em especial, enfim, curtia o momento.

E então, algum sádico que queria só umedecer os lábios ávidos dos fãs, tira nosso herói sul-americano do ar de novo. "De novo, não!", penso eu e muitos outros. Mas, novamente, nem quiseram saber de nós. Às vezes me pergunto se essa volta meteórica do Chapolin às telas não deu o resultado esperado para o SBT, mas não consigo conceber isso. Para mim é impossível que qualquer coisa no horário tenha dado mais audiência que Chapolin Colorado.

Menos mal que nos restou o Chavinho. Ainda temos a quem nos agarrar quando estamos numa carência desesperada de grandes piadas, grandes sacadas, boas histórias e grandes atores.

Mas ainda sinto falta de Chapolin. Não nego e reitero: "Não estou satisfeito". Quero poder sentar no sofá e torcer para passar o episódio do Fausto e Mefistófoles, mas se não passar, tudo bem, porque também quero ter certeza que terei outros dias para assisti-lo. Quero rir do Pirata Alma Negra desmaiando na mes a ao tomar o vinho, como se eu nunca tivesse visto antes. Quero ver os dois primeiros episódios da seqüência "Juleu e Romieta", esperando para ver o terceiro, que nunca vai passar. Quero ver a Bruxa Baratuxa e a Camponesa Simples De Nobre Coração Que Vai Todos Os Dias Ao Bosque Recolher Lenha, num dos melhores (senão o melhor) episódio, na minha humilde opinião. Quero me deliciar com o "cover" que Chespirito faz de Gene Kelly com tanta alma, coração e perfeição. Quero avisar para o Chapolin que o Super Sam está dormindo ao lado dele sem que ele perceba, como se o Vermelhinho pudesse mesmo me ouvir. Quero olhar para o Seu Mundinho e ver a triste realidade do idoso, não só no Brasil ou no México, mas em todo o mundo... Enfim, quero Chapolin de volta na minha vida, quero dar risadas entre uma garfada de arroz e outra de batatas gratinadas.

QUERO CHAPOLIN DE VOLTA! VOCÊS DO SBT NÃO TÊM ESSE DIREITO!

Bem, até que têm, porque são eles que detêm o controle remoto, igual aquele que seu pai segura firmemente assistindo a final do Campeonato Boliviano de Futebol, enquanto no outro canal está passando aquela novela que sua mãe tanto gosta de ver.

Mas será que a mãe não tem direitos nesta casa? Se não fosse a mãe, como o pai iria viver? Como o pai sobreviveria numa casa sem ordem, como ele cuidaria das crianças, como ele saberia usar aquele maldito ferro de passar, como ele iria comer?

Na casa da minha vovó, tem uma plaquinha onde se lê: "A casa é do papai, mas quem manda é a mamãe."

O SBT pode fazer os investimentos, contratações, demissões, tirar um programa de variedades e colocar uma novela colombiana. Mas quem é que aprova? Quem diz se o produto é bom?

É a mamãe aqui.

Sou eu que digo se o programa presta ou não. É você que diz se quer ver um filme ou o seriado do Superboy. É aquela empregada que diz que quer ver o Gugu ao invés de um bom filme.

Bem ou mal, somos nós que fazemos a programação (ou pelo menos era até tirarem o Chapolin). Se aquela porcaria continua lá, é porque existem pessoas o bastante prestigiando, se o Chaves não saiu do ar por 20 anos, foi porque nós assim quisemos.

O que será que falta para podermos ter de novo o Chapolin em nossas casas? O que será que eles querem?

Eu realmente não sei. Gostaria de ter alguma resposta, mas certamente o único retorno que teríamos seria aquele e-mail padrão do tipo "Obrigado pela sua sugestão. Continue nos prestigiando!"

Por enquanto eu continuo aqui, como um soldado no campo de batalha sem saber se a guerra já terminou e nós realmente perdemos. Podem continuar contando comigo, sentado em frente à tv com o olhar perdido e o prato na mão, sabendo que a hora do almoço não tem mais a graça e o brilho que só um certo uniforme vermelho com o coração amarelo no peito podia dar.